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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Não devia ter elogiado ninguém

Obs: Texto originalmente publicado no 7 Cronistas Crônicos.

Sábado à noite estava em uma dessas despedidas não oficiais quando uma amiga me disse que eu estava viajando, talvez inconscientemente, para dar sorte.

- Se você ficar em Salvador, o Bahia não vai ser campeão.

Para uns mais e para outros menos, os campeonatos estaduais têm lá sua importância, mesmo no caso de um bi-campeão brasileiro como o Bahia - aka Bahêa. Especialmente quando, nos seus primeiros 76 anos de história, ele jamais tinha ficado seis anos sem título e que, em 2012, completava 11, 11 anos (!) sem conquistar o Baianão.

Essa urucubaca sem precedentes e que não vai se repetir acabou num emblemático 13 de maio de 2012, também um dia das mães, quando eu não estava em Salvador.

No entanto, e na mesma linha de raciocínio, estava na cidade e no estádio na reinauguração da Fonte Nova, o 3x7, e desde então fui outras quatro vezes lá, com três empates e uma derrota. No total, cinco jogos e nenhum triunfo. Na última dessas partidas ganhei o ingresso em cima da hora e avisei a amigo que, ciente do meu currículo, respondeu em mensagem no celular.

- O Bahia vai ser goleado. =/

Anteontem, minutos antes de começar o BaVi, comentei com pai. “Você já viu Talisca? Há tempos não vejo um jogador que pegue tão fácil na bola”. Contava com o álibi de estar longe de Salvador, mas a superstição me lembrou do que acontecia nos tempos em que, criança e adolescente, elogiava alguém do jogo para ele ou meu irmão.

Fosse Ronaldinho ou Ronaldo, Riquelme ou Verón, Zidane ou Messi, Marcelinho Carioca ou Juninho Pernambucano, a conta era certa: um elogio e um erro. Quanto maior a minha entrega na ideia de chamar a atenção para o jogador, mais incrível era a besteira que ele fazia na sequência.

Anteontem, minutos antes de começar o BaVi, senti o arrependimento imediato. Senti que de nada adiantou acreditar na força de minha ausência. “Eu sou um azarado respeitado, um azarado histórico, tenho uma boca abençoada às avessas. Talisca ainda é uma promessa. Não devia ter elogiado ninguém”.

Hoje, quem é do futebol já sabe, o Bahia ganhou de 2x0. Um gol e uma assistência de Talisca.

A exposição do acontecido é um risco gigantesco quando olho para meu currículo e quando sabemos que domingo é o jogo de volta, mas sou um supersticioso que precisa de renovação. Do mesmo jeito que o bar pé quente já mudou de endereço quatro vezes, só em Salvador, a má sorte também muda de casa.

Tive que viajar porque tive que viajar, e falar bem de quem é bom não faz mal. Pelo menos é o que espero não desdizer semana que vem.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Morte e vida em 17 de maio

Time tem jogado até bem, mas o assunto hoje é retroativo e atual, o fora de campo.

Estava na Fonte Nova no dia do Bahia da Torcida.

Óbvio que muita gente, ao invés de ajudar, quer aproveitar a força que tem a maior instituição esportiva do nordeste, mas uma prova de que isso não será fácil veio quando a equipe de um programa sensacionalista apareceu no estádio. Vários vídeos mostram o momento, mas só quem esteve lá pode dizer quão assustador foi.

Não lembro quem estava no palco se dirigindo à torcida, mas em coisa de 10 ou 15 segundos, cinco mil pessoas ignoraram microfones, ignoraram aqueles que os convocaram ali, e direcionaram sua raiva a um grupo de no máximo cinco pessoas, ali representando uma persona non grata, pra dizer o mínimo.

Um momento de revolta, cheio de paixão e rancor, espontâneo e incontrolável.

Depois desse e de tudo que aconteceu ali, saí com a impressão renovada de que o Bahia poderia ser um misto de Green Bay Packers e Nápoli. Um time que representa parte menos abonada e mais apaixonada pelo futebol, com coragem, respeito e história pra disputar com gigantes, junto com uma equipe que é controlada por seus torcedores.

É possível que exista aí uma dose de divagação e utopia. Mas não importa quão oportunista o cara seja, não importa quão ditador o cara seja, o Bahia está longe de ser o caminho mais tranquilo para um escroque que sonhe em usar sua presidência como trampolim.

E a título de curiosidade, o 17 de maio de 2013, o dia do Bahia da Torcida, marcou também o dia da morte daquele que talvez tenha sido o maior tirano que a América conheceu no século XX, o General Videla.

Pode ser só uma coincidência, mas é uma coincidência que depõe a favor da gente.

 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O torcedor quer acreditar

Caro Marcelo Guimarães Filho,


Não simpatizo com textos presunçosos que querem ser porta voz de torcida, mas hoje caio na armadilha e digo o seguinte: o torcedor quer acreditar em você.

O torcedor quer acreditar que seus palavrões de resposta em redes sociais não foram um descontrole inadmissível e constrangedor pra quem ocupa a presidência de um clube grande. Ele quer acreditar que foi uma reação inaceitável, mas de um torcedor cuja paixão ainda desconhece limites, e que vai melhorar com o tempo.

O torcedor quer acreditar que a falta de reforços de peso não é por incompetência da diretoria na busca por brasileiros interessantes que pipocam mundo afora, em ligas e com salários menores. O torcedor quer acreditar que todos eles foram procurados e recusaram, e que o senhor não quer povoar o clube com jogadores e técnicos decadentes, nem com jogadores de videogame, que só enchem o Bahia de dívidas e piadas.

O torcedor quer acreditar que não só ele está errado em fazer uma petição pela sua saída, como o do Vitória está errado em criar outra pela sua permanência. Porque embora tenha motivos pra indignação, ele também sabe que o Bahia, graças à história, aos títulos, aos grandes nomes que por lá passaram, e à torcida, é maior que qualquer jogador ou presidente que tenha passado por ou venha a passar por lá.

Mas quem está lá precisa honrar a história, os títulos, os grandes nomes que por lá passaram, e a torcida. E quem está lá não passa confiança ao torcedor, que se sente com razão ao reclamar.

Por outro lado, torcedor não quer razão. Ele a troca por títulos, por brio, pelo orgulho de colocar a camisa e se sentir bem com ela.

O torcedor troca a razão pra ver o Bahia lá em cima, não importa com quem.


Por isso, Marcelo Guimarães Filho, e só por isso, o torcedor quer acreditar. Confessa que não acredita, mas quer acreditar. Que o senhor vê algo que ninguém mais vê, e que vai reerguer o Bahia como o torcedor não espera.

Porque, no fundo, o torcedor só quer ver o Bahia bem, e nisso concordamos. Ou, pelo menos, queremos acreditar que concordamos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Jogando CM

Na época em que jogava Championship Manager, o contrato que assinava com um jogador incluía a relevância dele, pelo menos na teoria. Dos cinco níveis, o quarto era “importante” e o último era “indispensável ao clube”.

Com base nesse contrato, as duas partes assumiam o nível de cobrança que cada um tinha com outro, e o jogador podia tanto recusar um contrato por causa dessa cláusula, como cobrar mais espaço com base nela.

O Bahia do ano passado tinha seus três principais jogadores em Gabriel, Souza e Lomba. No gol Omar era um ótimo reserva, o que fazia de Gabriel e Souza os únicos indispensáveis “no contrato” e na prática. Hoje, um deles saiu e o outro ganhou sombra de Obina e de Michael Jackson, o que nos leva à pergunta: quem vai liderar o Bahia?

Principalmente na reta final do ano passado, Hélder e Neto foram os nomes. Mas a questão é se eles conseguem evoluir de “importantes” para “indispensáveis” não só pela ausência de melhores, mas pelo futebol que vão jogar.
 
Não dá para tirar conclusões do fraquíssimo jogo contra o Conquista, nem pra concordar que “o time é isso aí”. De potenciais titulares, ali não estavam Toró, Talisca, Adu, Ryder e Souza. Isso pra não falar de Ávine e dos meninos da base (Madson, Railan e Anderson).

Em outras palavras, a pergunta continua. Não importam quantos sejam, o Bahia precisa que alguns jogadores assumam o posto de indispensáveis. Por carência, mas por mérito também. Apostas?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

E ano que vem?

E o Bahia se safou.

Uma avaliação é que o time só se livrou com um gol aos 43 do segundo tempo na última rodada, e a outra é que terminou seis pontos à frente do mais bem colocado entre os rebaixados.

Ambas são válidas. Dia desses li esse dessa, que também escolhe um lado para discorrer sobre, que é o da mediocridade, mas que me parece pecar na contextualização.

Para falar do Bahia de hoje, a gente tem que levar em conta não só os feitos fantásticos de 1959 e 1988, mas a tragédia que o time protagonizou do final dos anos 90 até o fim dos anos 2000.

Desde sua fundação em 1931, o Bahia nunca tinha ficado mais de cinco anos sem ganhar o Campeonato Baiano. De 2001 a 2012, foram 11.

Até 1997, o tricolor tinha jogado a segunda divisão apenas em 1981, quando o campeonato nacional ainda era uma confusão de regulamentos ano após ano. Já de 1998 a 2010, só esteve na elite de 2000 a 2003, com direito a passagem pela série C em 2006 e 2007.

Há cinco anos, o Bahia não só estava há outros cinco sem o título estadual, jejum que viria se alongar por mais seis, como também estava na Série C. Hoje, o time tem em Gabriel uma das grandes promessas do futebol brasileiro, chegou às quartas-de-final da Copa do Brasil, é o atual campeão baiano, e está na Série A, onde fez a quinta melhor campanha quinta melhor campanha do segundo turno.

Lógico que é necessário reconhecer os problemas. Do caminhão de reforços que desembarcou no Fazendão, só Neto virou titular. E de quem está no clube desde o início do ano ou antes, além de Lomba, Hélder, Gabriel e Souza, quem mais é indispensável?

Um consolo é a base. Em 2012 o Esquadrãozinho chegou à semifinal da Copa do Brasil sub-20, onde eliminou e venceu o Santos dentro da Vila Belmiro. Anderson Talisca é a pérola, mas não é o único que pode subir aos poucos.

A paciência e o cuidado que o clube deve ter com esses meninos deve ser a mesma que deve ter na hora de contratar e de planejar o porvir. Como o Bahia só começa o estadual no meio de março, diferente de quase todo o resto do país, é possível fazer uma pré-temporada decente e ter um 2013 melhor ainda.

Sem usar o passado longínquo como muleta, e sim como busca de respeito e motivação para quem quiser jogar. Mas também sem esquecer dos anos 2000, quando o Bahia fez um esforço hercúleo para ficar pequeno.

Que a diretoria tenha aprendido com os erros daquela época, e que aprenda com os deste ano, para que 2013, como 2012, termine melhor do que começou. Assim, em breve o time pode voltar a ser do tamanho do clube. A distância entre os dois já foi bem maior.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pela "Árvore de Natal"

Contra o Náutico, o Bahia não pode contar com a sorte de novo.

Neto está suspenso. Titi, Danny Morais (ou Lucas Fonseca) e Jussandro voltam ao time. De uma partida para a outra, provavelmente, Jorginho não vai trocar um ou dois nomes, mas a defesa inteira.

A menos que a mudança seja para poupar nomes, o que definitivamente não é o caso, isso não faz bem a time nenhum. Mas uma maior proteção ao remendado sistema defensivo pode fazer bem a quem tem decidido.
Primeiro, Hélder. Principalmente no segundo turno, passou a ser um perigo também para o adversário. Chuta forte e, quando não faz gol (Figueirense, Sport, Botafogo), dá o passe (Ponte Preta) ou participa (Portuguesa). É o volante que mais avança não (só) por características, mas por ser quem mais tem dado certo com a bola no pé da intermediária pra frente.

Depois, Gabriel. Alguém lembra como foram os últimos gols dele? Pelo meio, quando ou teve ângulo para bater de chapa (Santos e São Paulo), o que ele faz como ninguém no ataque, ou espaço para chegar na área (Grêmio). Embora não esteja tão decisivo, continua preciso em passes e é, junto com Hélder, o principal comparsa de Souza.

Os outros?

Para nem cogitar Mancini, que contra o Cruzeiro provou de vez que não é digno de vestir a camisa do Bahia, Lulinha, Zé Roberto, Jones Carioca, Ciro, Claudio Pitbull e Elias, quando jogaram, não convenceram que merecem a titularidade.

Em outras palavras, se a defesa não está grande coisa e gosta de laterais que avançam, e se ofensivamente o Bahia tem se limitado basicamente a três nomes, me parece claro que a “Árvore de Natal” é uma opção bem viável.

Na frente dos quatro atrás, três volantes, que seriam Fahel, Diones e outro (Fabinho? Kleberson? Victor Lemos?). Mais adiante, Gabriel e Hélder para, cada um com sua característica, desafogar Souza em gols e assistências.

Pelo 4-3-2-1, por uma festa antecipada em Pituaçu.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A trinca

O melhor do Bahia nessa sequência fantástica é a combinação de gana, seriedade e bola.

Aos 27 minutos do segundo tempo, e não falamos de falta ou escanteio, são cinco (cinco!) homens dentro da área, mais um lateral na ponta-esquerda. Todo mundo potencialmente cansado, mas sem perder o ímpeto, no abafa.

Apesar de certa inconsequência, já que contra-ataque seria um Deus nos acuda, me agrada a vontade que o lance passou.

Atrás, Titi e Danny Morais (embora tenha falhado) estão cada vez mais entrosados e cientes de limitações, indispensáveis quando falta categoria. Graças também aos dois, tem acontecido o que há pouco tempo seria inacreditável. Lomba não entra na seleção de rodada e, ainda assim, o Bahia ganha.

E ganha também por causa de Neto e Jussandro, bons ofensivamente, e por causa de Hélder, Diones e Fahel, em sintonia que há tempos não se via.

Hoje o Bahia tem uma base definida, tem jogado melhor e, o mais chocante, tem até laterais jogando como laterais.

Depois de incontáveis erros, lesões e mudanças em excesso e que poucos entendiam, o time caminha certo. Que continue assim.